Reciclagem

March 13, 2012 - 3 Responses

Era um papel. Branco no topo, onde o sol ainda o alcançava. Cinza na base, que repousava no cimento de uma calçada qualquer. Era um papel, um dia amassado – quem sabe quando? – ao lado de uma lixeira, talvez por descuido de quem o tivesse jogado, talvez pela má índole de quem sabe o que é acertar e não resiste em errar para se provar imperfeito. Mas era um papel.

Poderia ter sido esquecido, como já estava. Poderia ter sido notado apenas como símbolo da falta de ordem que impera no país, e jogado novamente ao abandono da lixeira que, a essa hora, já estava quase por fazer-lhe sombra. Poderia, aliás, antes de atirado ao chão, ter sido qualquer coisa – poema, rascunho, relatório, o vazio. Mas o que ele viria a ser era muito maior do que, quem sabe, talvez tivesse sido um dia: o começo.

Era um papel. Mas passaria a ser o mais importante papel de uma história que começaria com as letras nele escritas e acabaria em letras que nunca mais seriam escritas. Não, ao menos, em um papel.

Porque um curioso notou o papel, o desenrolou e viu o que estava escrito nele: e era um e-mail.

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Tudo muda, e o mês é sempre o mesmo

November 4, 2011 - 2 Responses

Outubro é o mês das mudanças. Quando a minha vida parece ajeitadinha, toda no eixo, a folhinha do calendário vira, outubro aparece de mala e cuia e se transforma naquele familiar distante e incômodo que você nunca sabe se gosta de ver ou não. Outubro zomba do seu passado, lembra constantemente daqueles fatos constrangedores da sua infância e deixa explicitamente claro que, não importa o quanto você se esforce para crescer, a sua vida sempre estará atrelada ao que você já foi um dia – e não ao que você pensa que é agora.

Mas Outubro sabe como me conquistar. Ele embaralha os meus pensamentos, dá as cartas para um jogo antigo de possibilidades novas e acompanha ali, por trinta e um dias ininterruptos, todos os meus blefes e artimanhas. Eu sei – sempre sei – que vou perder. Mas, por respeito ao que me é familiar, nunca deixo de jogar. No fim, descubro que ainda sou eu mesmo, o Cauê que insistentemente prometeu a Janeiro que ia mudar e mudou de casa, de cidade, de faculdade, mas manteve os mesmos medos, erros e cobranças. Outubro me obriga a relembrar o que eu era. E me mostra, como apenas um grande amigo mostraria, que eu ainda continuo sendo.

E eu ainda continuo sendo o Cauê que atualizava esse blog – repentinamente, tão familiar (e incômodo) para mim quanto Outubro. Mas que, diferentemente dele, não cede sua vez para Novembro: continua, enquanto eu continuar.

O que não muda em Salvador

May 2, 2011 - 5 Responses

Um amigo carioca me perguntou o que tem de verdade sobre a Bahia em Ó pai Ó. Eu respondi que Ó Paí Ó não é a Bahia, é o Pelourinho. Vá ao Pelourinho, passeie pelo Centro Histórico de Salvador e você vai se sentir no filme, com todo aquele sotaque deliciosamente arrastado, aqueles pivetes esperando você dar mole para te roubar, aquela grosseria soteropolitana típica de quem não sabe – e nem quer – atender bem turistas porque acreditam que é você, turista, quem precisa dos nativos para sobreviver, e não o contrário.

A Bahia, no entanto, é um estado muito grande para se resumir ao Pelourinho. Visitei Salvador na Semana Santa e percebi que até mesmo a capital já está muito grande para se resumir ao berço cultural desorganizado, regionalista, kitsch, que costumava ser: nota-se aqui e ali uns ares de grande metrópole, uma padronização de gostos e estilos, uma descaracterização crescente da formidável esculhambação que era aquilo uma década atrás, quando eu, criança, por lá morava.

Mas ainda há muito de Salvador em Salvador. Percebo isso quando o primo Beto me leva para visitar uns amigos sem hora marcada, no meio da noite, e é recebido como novela das oito – que passa sempre no mesmo horário, todas as noites. Amigos que lhe recebam bem, não importa quando, são extremamente raros, mas absurdamente freqüentes em Salvador. E depois de ouvir histórias verdadeiramente baianas, de pessoas autenticamente soteropolitanas, que eu não sei se posso (mas adoraria) contar aqui, sinto um alívio instantâneo ao sentir que, por mais que Salvador cresça ou mude, as pessoas que me interessam mesmo nela podem até crescer, mas nunca vão mudar.

The curious case of Cauê Marques

May 1, 2011 - One Response

Desde o ano passado, eu noto que estou ficando careca. Começou com meu chefe reclamando dos fios de cabelo no teclado do computador da agência. Depois, comigo mesmo reclamando dos fios de cabelo no teclado do computador de casa. Aí, veio o roommate reclamando do número de fios (de cabelo ou não) no ralo do banheiro. A todos esses sintomas de calvície, eu respondia com nervosismo, seguido de um leve acesso de pânico, pânico total, tentativas de suicídio e, repentinamente, calma instantânea: não é nada, não pode ser nada, é que eu tenho muito cabelo, e ele só cai porque tem muito, isso é normal, pronto, acabou.

Mas não acabou. Fui à dermatologista, ela fez os exames e deu o veredito: sim, fudeu, e a única forma que você tem pra contornar isso é tomar um remédio que talvez detone (e detonou) a sua libido. Ou seja: ou você fica feio pelo resto da vida ou… impotente pelo resto da vida. Acredite, tem quem escolha a segunda opção.

E isso esculhamba a minha vida porque, porra, eu vou começar uma nova faculdade, abandonar tudo para ficar desempregado no Rio, e tenho só 23 anos, idade em que eu certamente deveria ter um emprego mas certamente não deveria ficar careca, e agora lá estarei eu, calouro, com uma cara perdida de Woody Allen em meio aos outros calouros sarados, morenos e cabeludos de 18 anos na Uerj.

Eu tava levando até na moral a ideia de não ter carinha de 18, não ter corpinho de 18, e sempre ter tido tamanho de 15, mas aí a genética não se contenta e me informa que há grandes chances de que, em dois anos, eu tenha uma careca de… sei lá, 42. As pessoas tentam me confortar apontando carecas bonitos como o Vin Diesel ou o Bruce Willis, mas esses obviamente não adiantam, porque porra, são os que têm carinha e corpinho de 18.

E, cara, esse cabelo desgrenhado sempre fez tão parte do meu estilo. Eu só fico lembrando da época em que trabalhava no Banco do Brasil e o gerente implorava (e até pagava) para eu cortar a cabeleira, porque tinha vergonha do superintendente reclamar. Eis aí a ironia da vida: quando eu tinha aparência de universitário, escolhi ser bancário. Agora que vou ter aparência de bancário, claro, lá vou eu ser universitário novamente. Aos 19 anos, não é todo mundo que tem um emprego fixo, estável e bem remunerado. Aos 23, não é todo mundo que fica careca e desempregado. E, além do Benjamin Button, eu não conheço mais ninguém cuja vida ande para trás.

A intimidade de Caio efe.

April 3, 2011 - 7 Responses

Caio Fernando Abreu é o novo hit da internet. Eu não sei se as pessoas chegam a ler os textos dele, não sei se as pessoas sabem lá quem ele foi, mas sei que há uma avalanche de citações do autor em todas as redes sociais que freqüento. É engraçado que antes do advento do twitter, ninguém parecia se importar com o coitado: passei três meses lendo os essenciais de cada década sem nunca ser importunado por qualquer um que dissesse: “ah, você Caio F.?”.

Mas agora, tente folhear em público algum livro dele – de preferência, um que estampe o Caio F. bem gigante na capa – e sofra as conseqüências. Alguns parecem até conhecer o autor, mas alguns… “ah, você lê Caio F.? Depois me passa umas citações legais pra eu colocar no orkut?”. Ou pior, bem pior: “Ah, você lê Caio F.? Sabia que ele era gay?”. A intimidade já está tanta (note: Caio efe.) que não demora muito para algum pseudo-intelectual perguntar: “Ah, você também lê Caio F.? Sabia que esse F. é de Fernando??”.

Sofri algo parecido com o boom de leitores do Saramago repentinamente aparatados após a sua morte. A diferença é que os recém-convertidos leitores dele tinham problemas em achar citações legais para postar por aí porque, né, o texto do Saramago é tãão difícil. Mas hoje, só no meu MSN, encontrei as seguintes citações do Caio (não me pergunte de que obra): “amor não resiste a tudo não” e “teu coração baterá com força, sem que ninguém escute”. Com certeza, os trechos mais profundos que Caio efe. já escreveu.

A profissão que nunca tive

March 25, 2011 - 4 Responses

Eu já quis ser jornalista. Mas entre cinco anos de faculdade e a certeza de que escrever bem é algo inatingível, percebi que tudo o que eu sempre quis, na verdade, era poder me expressar com palavras. Eu poderia ter sonhado em ser roteirista, escritor, redator publicitário ou até tradutor. Escolhi o jornalismo porque, dentre tantas outras profissões, nenhuma me parecia tão adequada.

Filho de jornalista, testemunhei todas as delícias de um tempo em que a profissão era sinônimo de liberdade, boemia e forte personalidade. Hoje, sinto nostalgia de um tempo de glória que testumunhei de baixo, com os olhos de uma criança: uma velha Olivetti sendo datilografada em casa, reuniões políticas de bastidores em que gargalhadas sinceras se misturavam com planos maléficos para dominar o mundo, notinhas de jornal que faziam efeito toda vez que nos sentíamos injustiçados.

A distância física e a aproximação virtual das pessoas transformou o que me parecia ser a melhor profissão do mundo em algo novo, que apesar de ter o mesmo nome não poderia ser mais diferente. Gostaria de saber se, em algum lugar escondido, esse jornalismo que vivi ainda existe, protegido da evolução tecnológica, da informação instantânea e do mundo globalizado. Por ora, a certeza que tenho é que escolhi a profissão errada: hoje, me parece que ser jornalista tem cada vez menos a ver com se expressar com palavras.

A rede social

March 24, 2011 - Leave a Response

Quer dizer, antes as pessoas decidiam que estavam namorando – e pronto. Mas hoje, com toda essa coisa chata de ter que atualizar o status quo nas redes sociais, até um simples início de namoro passa a ser aquela coisa burocrática de dar satisfações a todos os familiares, amigos e desconhecidos sobre sim, o que está acontecendo, quem é a menina, de onde ela é, como se conheceram e, mas peraí, você já não estava quaaase para se mudar para o Rio?

Aí acontece que não, eu não sei o que vai acontecer quando eu me mudar e não, eu não quero pensar nisso agora. E como toda vez que alguém pergunta, machuca ter que pensar em uma resposta, taí: prefiro continuar naquele status completamente obscuro em que você tem tudo o que um namorado teria e faz tudo o que um namorado faria, mas, na verdade, sacumé, né? – não está namorando.

Por mim, tudo beleza, mas quem disse que a praticamente-namorada concorda? É nessas horas que você agradece aos céus pelo Facebook – esse lindo – pensar em tudo por você. Status de relacionamento? Amizade colorida. Forte o suficiente para demarcar qualquer território e fraco o suficiente para que  familiares/amigos intrometidos percebam que existe algo de incompleto ali e não se atrevam a pedir informações.

Boa ideia, mas funciona? Não sei. Depois de toda a discussão, ela avisa que tá, até prefere que o status fique assim, vazio mesmo. E eu? Eu entro na crise existencial mais sem sentido ever, claro: estou, não estou ou quase estou namorando?

Carcereiro de ideias

January 13, 2011 - Leave a Response

Tem dias que ideias presas na sua cabeça fazem rebelião, queimam lençóis, batem nas grades dos neurônios e teimam em sair fugidas. Hoje, bastou a palavra ‘benzedeira’ surgir em uma conversa que logo brotou uma ideia rebelde de escrever uma crônica em que Olho Gordo fosse um personagem de botequim, sempre bêbado, cuja única função social é invejar as pessoas que trafegam pela rua de uma cidade pequena – tipo Itapetinga – enquanto ele fica lá parado, vivendo por osmose um conjunto de vidas em que nenhuma, nem a do mendigo da esquina, é tão patética quanto a dele.

Os contornos da história já encaixavam as suas próprias peças quando a imagem de uma benzadeira safada, bem gorda e beiçuda, roubou toda a atenção do meu consciente. Ela viveria colocando olho gordo (não o personagem, mas a praga mesmo) em quem a procurasse para tirar um olho gordo já existente. Eu nem sei se existem vários tipos ou o que é bem um olho gordo, mas na minha cabeça a história funcionaria assim: ela tirava o que tava deixando a pessoa doente, por exemplo, e colocava um para deixar a pessoa pobre. Alguns meses depois, a pessoa voltava lastimando o sofrimento da pobreza repentina e ela, fingindo assombro, exclamava:

– Eita que te botaram outro olho gordo, mas veja! Quem num gosta de você tem mermo é muita inveja…

Daí tirava o olho gordo da pobreza e botava o da doença de novo. Eu não sei se ela ganharia a vida cobrando as pessoas pelo serviço pilantra, ou faria isso só por um prazer sádico mesmo, de ser ao mesmo tempo salvadora e bandida disfarçada. E acho que nunca vou saber, porque só de escrever isso aqui já deu preguiça de elaborar qualquer história. Como carcereiro de ideias, eu sempre escolho o rumo mais fácil: em vez de conter a rebelião e mantê-las comigo, apenas penso, penso bem e desisto. Então elas fogem, e acaba que nunca mais nos encontramos novamente.

Futuro do pretérito

January 10, 2011 - Leave a Response

A tentativa de reconstruir os elos de amizade da época em que eu morava no Rio de Janeiro quedou-se um pouco frustrada. Em parte, isso é muito culpa minha, que um dia decidi ir estudar na Bahia, fiz as malas e desapareci durante cinco anos. Aqueles que ainda mandaram recados perguntando como (e onde) eu estava foram respondidos de forma zelosa e educada, mas não mais do que isso.

Eis que eu só lembro da importância dos que ficaram quando decido voltar e as coisas se invertem: a vida que eles levam já mudou tanto que é difícil encontrar um espaço em que a minha participação não soe desorientada ou fora de contexto. Continuam amigos, e ainda nos divertimos juntos, mas a cada vez que nos despedimos fica mais difícil sabermos quando, ou se, vamos nos encontrar novamente.

A exceção fica para o Filipe, filósofo e desocupado, com tempo de sobra para o esforço hercúleo que é reinventar a nossa amizade. É incrível poder conversar com propriedade sobre o futuro com um amigo tão antigo, quando o normal seria apenas relembrarmos como era bom o passado, blá, blá, blá, foi bom te ver e até a próxima.

Uma próxima que, com todos os outros, acaba conjugada no futuro do pretérito: poderia ter acontecido, mas nunca aconteceu.

Boring 2010

January 2, 2011 - Leave a Response

3am

2010 foi aquele ano chato, que era para ser diferente e não foi. E, pensando bem, todos os últimos anos também foram assim. Eu me pego fazendo promessas animadas para o que virá, para o que será, para o que terá e nada acaba vindo, sendo ou tendo porque o mundo gira e quem fica lá parado sou eu, preocupado com todas aquelas coisas miúdas que não mudam nossa vida – e nem deveriam mudar – mas que enchem o nosso cotidiano de desculpas para sermos assim, pouquíssimo interessantes.

E aí, blog é tão ensino médio de 2005, sabe? É tão clichê, é tão pseudo, é tão gente-que-quer-se-sentir-interessante-na-internet, mas então eu crio um no dia 1º de janeiro porque acho que isso vai fazer 2011 ficar diferente, vai me obrigar a refletir mais sobre a vida sacal que eu estou levando e me forçar a encontrar algo interessante para escrever sobre ela, em vez de, bem, só reclamar do que (não) anda acontecendo.

Se tudo der errado, eu desisto dele em menos de um mês. Mas algo deve dar certo, porque neste ano eu me formo, volto a morar no Rio e, possivelmente, coloco uma mochila nas costas e saio viajando por aí. Sair da Uesb é conquistar a liberdade em tantos aspectos, mas tantos mesmo, que já é fato que ou o que eu quero muda agora ou não muda nunca mais.

E, porra, eu quero muito que mude agora.